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sexta-feira, 26 de outubro de 2007

A guerra colonial era um espectro para todos os jovens portugueses da minha geração.

Por incrível que pareça os 2 anos que por lá passei em Angola considerei um serviço como qualquer outro. Até uma experiência positiva, um deslumbramento. Regressei mais crescido e enriquecido interiormente.

Éramos uns miúdos sem grande consciência política, sem uma opinião abalizada das causas profundas da situação, educados que fomos pela doutrina do Estado Novo. Pessoalmente, nunca considerei que Angola fosse nossa. O que desejava era que aquela experiência terminasse sem ser afectado por alguma bala perdida. Parece que o sentimento era geral, excepto nalguns oficiais milicianos onde se pressentia, devido a uma maior consciência política forjada nas universidades, um desencanto devido à interrupção forçada dos seus estudos. Por outro lado, não tinhamos aquele sentimento de amargura ou sofrimento, como foi descrito, por exemplo pelo escritor António Lobo Antunes no seu livro, Os Cus de Judas. Os dias eram sempre iguais, dividido que estava nas Ordens de Serviço que elaborava e batia à máquina de escrever todos os dias e nas rondas periódicas de ronda ao aquartelamento. Tive sorte, a minha especialidade não era o atirador que vai para o mato. A minha guerra decorria na secretaria com a caneta e a máquina de escrever.

O dia a dia com os africanos e a realidade da guerra, e no regresso à Metrópole, permitiu-me uma tomada de consciência diferente, reforçada com o contacto com amigos que deixei por cá, também eles já com uma visão diferente da situação do país. Vivia-se uma certa abertura marcelista.

Quicabo (Angola)

Destaco as principais causas da minha ideia de experiência positiva e actual nostalgia por esses tempos. A fabulosa amizade e solidariedade de todos nós naqueles momentos cruciais das nossas vidas. O despertar para outras realidades e vivências. Por fim conhecer, um pouco mais sobre a natureza humana e as suas reacções perante a adversidade e os perigos que felizmente não conheci.

Confesso que vivi.

6 comentários:

Laura disse...

E este moço não tem vergonha de não ter ido pela rua dos Pombeiros e encontrado esta garota das resteas?
mas que distraído...estive lá desde os 10 até aos 22, assim de certeza que estavas lá e andaste pelos lugares onde eu nem andava. Luanda sim, linda bela saudosa.
E claro trabalho de secretaria era bom, as folgas as passeatas com os amigos e as moças, mas que beleza menino. Ao menos conheces a minha terra de amor.
Muitos iam revoltados claro e com razão, tinham de parar os cursos e muitos nunca mais voltavam, e eu naquelas idades nem ligava a isso, achava normal os tropas irem para lá, para nosso deleite eram muitos nos unimogs a passar a acenar e a dizer coisas lindas que eu nem ouvia, mas pelas caras deles...
Belos tempos, ams infelizes para quem não voltou e as familias que tanto sofreram...
Beijinhos.

Pascoalita disse...

eheheheheh parece mesmo o meu "afilhado de guerra" que nunca cheguei a conhecer pessoalmente.

Bem me lembro dessa época e da quase naturalidade com que se encarava a questão das colónias.

Ao contrário das famílias que não duvido que vivessem num sufoco, creio que a maioria dos jovens militares, exceptuando talvez os que já eram pais, partiam entusiasticamente, quase sem terem noção dos perigos que iam enfrentar.

Carlos II disse...

Laura
Humm! As meninas só gostavam dos oficiais milicianos. A não ser que trajasse-mos à paisana.

Pascoalita,
Era isso mesmo. Conforme o meu texto, não havia a noção dos perigos. Tratava-se de uma aventura sem uma grande consciência política. A política passava ao lado.

Ahlka disse...

Estive agora a ver 'por alto' um programa acerca das atrocidades da guerra do ultramar...
Parece que tiveste sorte por passar, não só ao lado da política como também da linha da frente.
Ainda bem que assim foi, conheço ex-combatentes que nunca deixaram de ter pesadelos ou que nunca mais sairam dum estado de um quase-autismo.

Carlos II disse...

Ahlka,

Acontece que, no meu tempo as coisas já não eram tão perigosas quanto isso. Porque os portugueses tinham o território controlado. A não ser na zona leste. Nos primeiros anos, conforme o documentário que tem sido agora passado na tv é que foram tempos muito duros.

cusquinha endiabrada disse...

Ei-lo!!!
O Carlitos, suponho que muito antes de ter encontrado os "ii" eheheheh